Frédéric Monnier – um francês com alma brasileira
A intenção era uma entrevista rápida, apenas para coletar informações essenciais. Mas conversar com Frédéric Monnier sem se perder em histórias saborosas é quase impossível. O chef francês, que há mais de 20 anos fez do Rio de Janeiro sua casa, é um contador nato. Entre um relato e outro, ele fala de sabores, pessoas, viagens e das reviravoltas que o trouxeram até aqui.
A gastronomia transforma vidas. Transformou a minha, diz, com o entusiasmo de quem nunca perdeu o brilho no olhar pelo ofício.
Nascido em Angers, no noroeste da França, Frédéric cresceu cercado por aromas que marcaram sua infância. Seu avô fundou, em 1955, uma charcutaria que depois foi assumida por seus pais, e sua avó gerenciava um bistrô para caminhoneiros, onde servia cerca de 60 refeições diárias.
“Na França, onde os caminhoneiros param, é porque a comida é boa”, brinca. Desde pequeno, ele viu o impacto que a boa comida tinha sobre as pessoas e aprendeu que hospitalidade vai além do prato servido à mesa.
Sua formação gastronômica começou cedo. Aos 15 anos, decidiu fazer estágio em um hotel e, fascinado pela sofisticação do serviço, seguiu para uma tradicional escola de hotelaria. Foram quatro anos de aprendizado intenso, que incluíram desde técnicas de cozinha até gestão e recepção. O rigor da formação o preparou para o mundo da alta gastronomia, onde ingressou rapidamente, passando por restaurantes estrelados na França e eventos de grande porte ao redor do mundo.
Uma escola de hotelaria na França é completa. Você aprende a gerenciar um restaurante, a atender, a cozinhar. Saí de lá pronto para encarar qualquer desafio.

A carreira de Frédéric deslanchou nos eventos de alto luxo. Aos 20 anos, coordenou seu primeiro grande jantar para 10 mil pessoas sob a pirâmide do Louvre. Nos anos seguintes, trabalhou em eventos internacionais, como Rolland Garros, e participou de produções gastronômicas em Dubai, Viena e Londres, entre outros locais. Apesar do prestígio, o ritmo intenso o fez buscar novos ares. Em 2001, após uma breve passagem pelos Estados Unidos, decidiu explorar o Brasil.




A adaptação foi imediata. No Rio de Janeiro, conseguiu trabalho no renomado restaurante Garcia & Rodrigues, no Leblon. O plano inicial de ficar alguns meses se transformou em uma nova vida. Casou-se, teve três filhos e, em 2005, abriu seu próprio restaurante, a Brasserie Rosário, no Centro do Rio. O restaurante rapidamente se tornou referência, lhe rendeu prêmios e consolidou seu nome na cena gastronômica carioca.
“Foi ali que comecei a ser reconhecido. Ganhamos prêmios, fizemos parcerias importantes, e o restaurante virou um ponto de encontro”, relembra.
Foi nesse período que fortaleceu sua conexão com os grandes eventos no Brasil. Passou a atuar com mais frequência no Rio Gastronomia, onde trabalhou pela primeira vez em 2002, ainda pelo Garcia & Rodrigues, e, nos anos seguintes, esteve à frente da cozinha de diversas produções de peso. Ao mesmo tempo, sua rede de contatos crescia, e ele percebeu que poderia atuar para além das panelas. “Quando você trabalha com restaurante e evento, se conecta a muitas pessoas. No começo, eu nem sabia quem eram. Depois, percebi que essas conexões podiam ajudar muita gente, inclusive a mim”, conta.

Depois de abrir e administrar cinco restaurantes e coordenar uma equipe de 370 funcionários, Frédéric decidiu encerrar essa fase. Entre 2015 e 2018, fechou suas unidades e redirecionou sua atuação. A experiência acumulada o levou à consultoria para restaurantes e eventos, auxiliando desde a criação de cardápios até a gestão de negócios gastronômicos. Hoje, é consultor do Sesc RJ e trabalha com projetos personalizados para diversos empreendimentos.
Seu envolvimento com a formação profissional também cresceu. Em 2006, foi convidado pelo Senac RJ para desenvolver o curso de chef de cozinha de lá. A iniciativa já formou mais de sete mil alunos e, atualmente, Frédéric é chef embaixador da instituição.
Quando comecei a dar aulas, entendi que ensinar era essencial. Você pode mudar a vida de uma pessoa ao transmitir seu conhecimento.
Além disso, desde 2008, lidera um projeto de alimentação saudável no Lycée Molière (escola francesa localizada no bairro de Laranjeiras), onde implementou uma cantina baseada em produtos orgânicos e preparações equilibradas.
“No começo, as crianças estranhavam, mas hoje elas adoram. Nossa cantina serve comida de verdade, sem industrializados. São cinco toneladas de orgânicos por mês. Isso transforma hábitos”, acredita.
Esse compromisso com uma gastronomia responsável o levou a atuar em iniciativas de agroecologia e sustentabilidade, como o projeto Gosto da Amazônia, que promove o manejo sustentável do pirarucu na região amazônica.
A paixão de Frédéric pela culinária vai além da tradição francesa. Ele gosta de experimentar, reinventar e criar. Prova disso é a sua famosa mousse de paçoca, uma fusão entre a doçura brasileira e a leveza das sobremesas francesas.
Além de chef, consultor e empresário, Frédéric também é palestrante e ocupa cargos relevantes no setor gastronômico. É Maître Cuisinier de France, título que apenas quatro profissionais em atividade no Brasil possuem, e conselheiro do SindRio (Sindicato dos Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro) e da Câmara de Comércio França-Brasil. Como embaixador do Polo Gastronômico da Zona Sul, promove a valorização da culinária local e da excelência no atendimento.
O brasileiro ama paçoca. Eu também, mas achava muito doce. Então, criei uma versão equilibrada e misturei com chocolate. Sempre faz sucesso.






Sorridente e sempre pronto para uma boa conversa, Frédéric Monnier não se limita a criar pratos – ele cria experiências. Seja coordenando um evento de grande porte, ajudando um restaurante a encontrar sua identidade ou formando novos profissionais, seu olhar vai além do óbvio. “Eu detesto fazer um evento sem entender o objetivo dele. A pessoa tem que se sentir bem de A a Z, tem que ser algo memorável”, explica.
PARA ELE, COZINHAR É MAIS DO QUE ALIMENTAR.
A gastronomia abre portas. Comida é cultura, história e conexão. Você pode atuar no mundo inteiro, porque em qualquer lugar, por mais simples que seja, há um restaurante, um mercado, um alimento que une as pessoas.
E é exatamente essa mistura de técnica, paixão e acolhimento que faz de Frédéric Monnier um chef único – um francês com alma brasileira.